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Tecnologia + idoso: uma equação para enfrentar os desafios da longevidade

Agetechs devem movimentar US$1,8 trilhão esse ano somente no Brasil e podem trazer mais qualidade de vida para os 60+

Filho e neto de médicos empreendedores, Fernando Cembranelli logo percebeu uma oportunidade na ausência de uma comunidade empreendedora de saúde em São Paulo. Um dos co-fundadores da Empreender Saúde, Fernando, também médico, envolveu-se cada vez mais com inovação e hoje está à frente do Health Innova Hub, que busca abrigar, fomentar e desenvolver o ecossistema desse setor. 

E, em meio ao boom das healthtechs, as startups de saúde, Fernando preocupa-se com a falta de atenção recebida pelas agetechs, dedicadas ao envelhecimento. “É um setor muito importante. Os dados mostram que as pessoas vivem cada vez mais, mas ainda carecemos de soluções para o público longevo. Não dá para imaginar que vamos lidar com o envelhecimento somente pensando em soluções analógicas e locais.”

A chamada revolução prateada desperta a atenção de economistas e empresários e, somente no Brasil, deve movimentar US$1,8 trilhão até o fim deste ano, mas ainda é abordada com cautela por investidores. Entre os temores estão a falta de conhecimentos formais em gestão e de uma cultura de empreendedorismo na saúde, a dificuldade para pensar em modelos de negócios escaláveis e a inclusão tecnológica. 

Embora exista, sim, uma necessidade maior de letramento digital entre os 60+, estudos apontam que o público longevo é ávido por soluções tecnológicas.

A pesquisa “The truth about online consumers” (A verdade sobre os consumidores online), da KPMG, mostrou que, em 51 países, incluindo o Brasil, os baby boomers, nascidos após a 2a Guerra Mundial, fazem quase tantas compras online quanto os consumidores da Geração X e os Millennials. Além disso, por aqui, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios, 58% dos idosos acessaram a internet com seus smartphones durante a pandemia, e o uso do Facebook por maiores de 60 anos aumentou 16% nesse período.

Enfrentando barreiras, porém estimulados por dados como esses, alguns empreendedores arriscam. Startups como a Janno, de planejamento de fim de vida, Eu Vô, um app de transporte dedicado aos idosos, e Matinê App, um clube digital de saúde e entretenimento para os 60+,  buscam ocupar espaços nos nichos de healthtechs e agetechs, muitas vezes movidas pelas histórias pessoais de seus fundadores. 

“Hoje, quando falamos de longevidade, pensamos em nossos pais e avós, nas nossas histórias. São dores que vivemos em nossas famílias. As pessoas tentam melhorar aspectos do envelhecimento por não encontrar soluções adequadas para seus familiares. Quantos de nós não ficamos sem ver ou cuidar de nossos parentes na pandemia e poderíamos ter nos beneficiado com o digital?”, pondera Fernando.

As mudanças impulsionadas pela pandemia

Na metade de 2021, o administrador de empresas Alexandre Pereira, de 62 anos, tornou-se um dos quase 22 milhões de brasileiros contaminados pelo coronavírus. Com dificuldades respiratórias, passou a ser atendido pela equipe da Laços Saúde para tratar das sequelas da Covid-19.

Com o isolamento social e menos disposição física, foi tornando-se também sedentário. Atendido por uma equipe multiprofissional em um modelo de cuidado integrado, acabou percebendo outras questões que mereciam sua atenção. Está retomando a função pulmonar com a fisioterapeuta, reforçando a base da coluna e o equilíbrio com a educadora física, ajustando a alimentação com a nutricionista e cuidando de uma área muitas vezes negligenciada: a saúde mental.

Alexandre e sua esposa, Ana Claudia, utilizam o Matinê App para interagir com outras pessoas de sua faixa etária e gerir melhor a saúde. “É um canal de comunicação que permite que a gente se reúna e se cuide de forma mais fácil”, conta.

Alexandre Pereira, paciente da Laços Saúde, aprova o Matinê App: é um canal de comunicação que permite que a gente se reúna e se cuide de forma mais fácil

Também pedagogo empresarial, Alexandre participa de atividades recreativas, como as aulas de zumba, recebe orientação multiprofissional e interage com os colegas. Numa dessas conversas, falando sobre esperança, encontrou motivação para investir em seu desenvolvimento intelectual. “Decidi estabelecer uma nova meta para mim: vou voltar a estudar espanhol”. 

O caso de Alexandre aponta para uma mudança de paradigma no setor. Sobrecarregados pela pandemia, clínicas e hospitais voltaram os olhos para o atendimento primário e a necessidade de coordenar o cuidado, além de desenvolver ferramentas digitais para buscar mais proatividade no atendimento e eficiência operacional. 

“Estamos passando da fase em que o paciente buscava a saúde para a fase em que levaremos saúde para ele. No caso dos idosos, devemos entender que envelhecer não precisa ser sinônimo de adoecer. Se pudermos organizar essa população em grupos, com interações virtuais, conseguimos, rapidamente, receber alertas para quando alguém precisa de cuidado. Isso traz melhorias tanto em escala individual, como comunitária”, analisa a diretora-executiva da Laços Saúde, Martha Oliveira.  

Para Fernando, além das oportunidades trazidas pelas mudanças demográficas e epidemiológicas, o mercado de agetechs deve deslanchar também porque o Brasil já conta com uma oferta robusta de negócios locais voltados à longevidade, como Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), clínicas geriátricas, empresas de assistência domiciliar e cuidadores de idosos. “Demora um pouco, porque o mercado é novo e precisa quebrar todo tipo de barreira, mas nunca tivemos tanta coisa boa em gestação. Com políticas públicas fortes e programas de financiamento especializados, vamos desenvolvendo novos produtos e serviços para promover o envelhecimento independente e com qualidade de vida”, conclui.

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