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Saúde mental: pilar da qualidade de vida no envelhecimento

Quando cuidamos das emoções dos idosos, dos seus medos e inseguranças, vem à tona a autonomia, a alegria e uma vida social mais ativa. O envelhecimento ganha cores vivas e dias mais leves

Até pouco tempo atrás, não se falava em envelhecimento saudável. Ultrapassar a linha dos 60 anos significava levar uma vida mais restritiva, longe de prazeres que tornam o dia a dia gostoso. No Brasil, apenas nos anos 1990, foi instituída uma política pública nacional para os idosos e, de lá para cá, muita coisa mudou, principalmente em relação à saúde física dos mais velhos. 

Mas, se nos dedicamos a cuidar das dores insistentes e das doenças que surgem nessa fase da vida, ainda estamos longe de ser eficazes na atenção à saúde mental. As emoções também se transformam com o passar do tempo e a angústia, o medo e até o preconceito podem aparecer e fragilizar os idosos. 

Atenta a isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chamou o período de 2021 a 2030 de “A década do envelhecimento saudável” e convocou governos, sociedade civil e pesquisadores, entre outros segmentos, a alinhar suas práticas a fim de que os idosos tenham boas condições de vida, o que inclui estar integrado socialmente, viver bem em comunidade, com amigos e familiares. 

É certo que os mais velhos foram educados numa sociedade mais dura, na qual olhar e cuidar dos sentimentos nem sempre era tido como necessário. E talvez, por isso mesmo, hoje em dia seja difícil mergulhar nas emoções, admitir certa tristeza ou solidão. Mas é fundamental colocar a saúde mental na agenda de cuidados diários, mesmo quando há resistência. 

Para o psicólogo Marcos Rabello, especialista em terapia familiar pelo BuurtzorgT, da Holanda, as pessoas mais velhas costumam ser mais resistentes a pedir e aceitar ajuda; têm dificuldade em lidar com as perdas e o luto que sempre rondam essa etapa da vida; não sabem como driblar a solidão e encarar a proximidade da morte; e ainda fazem uso excessivo de medicamentos, como os antidepressivos. “Como terapeutas, o nosso trabalho é ajudá-las com essas questões, fortalecê-las para que se sintam acolhidas e pertencentes”, explica Marcos.

Com afeto e vínculo

Segundo a psicóloga Isabel Moura, conselheira da Laços Saúde, o envelhecimento é um processo longo, que acontece aos poucos e revela nossas fragilidades. Sem contar que os idosos já se aposentaram, costumam ficar sozinhos e muitos não vivem com seus familiares. “É preciso ouvir suas histórias, acolher suas dores e inseguranças e criar um envolvimento significativo. Quando os mais velhos têm a oportunidade de conversar e resgatar suas experiências, eles se revigoram, percebem a importância da sua vivência, do lugar que ocuparam e ocupam agora na velhice.”

Ter um envelhecimento saudável significa não deixar a saúde física nem a mental de lado. Por isso, uma visão holística do idoso é importante: “É falar do corpo sistêmico, da dor de cabeça por causa de um estresse, das dores no corpo derivadas de um medo ou uma insegurança. Precisamos tratar do que causa os sintomas para que as pessoas mais velhas tenham autonomia e sintam-se bem e tranquilas”, diz Rabello. 

Atualmente, não faltam ferramentas para mediar esses cuidados. Rabello conta sobre as vantagens, por exemplo, do atendimento domiciliar, um dos pilares da BuurtzorgT, na Holanda.

“Quando o terapeuta vai à casa do idoso, a relação que se estabelece ali é mais “democrática”. O especialista é o convidado do cliente, que mais empoderado, vai recebê-lo no horário adequado para ele e, se for necessário, por um período mais longo do que uma hora. Estar em casa também faz o paciente se sentir à vontade e seguro para compartilhar suas incertezas.” 

Marcos Rabello, do BuurtzorgT

O próprio ambiente do paciente diz bastante sobre ele. A maneira como os móveis e objetos estão organizados, se há ou não fotografias e até mesmo a limpeza do lugar sugerem informações consistentes para o psicólogo. “Acompanho um senhor que gosta de acumular todo tipo de objeto. Nas sessões na casa dele, pude perceber o quanto isso era importante. Durante sua vida, ele viveu muitas perdas e agora, na velhice, lida com a dificuldade para se desfazer do que não precisa mais”, exemplifica Rabello. 

Isabel, que também se dedica ao atendimento domiciliar na Laços Saúde, gosta de incrementar suas visitas com doses extras de afeto: é comum ela levar, por exemplo, uma caixinha de som para ouvir a música predileta de seus clientes, um jeito de trabalhar as boas emoções e as memórias afetivas. 

Quando o encontro presencial não é possível – às vezes, os idosos não conseguem se deslocar com facilidade ou não contam com alguém para ajudá-los nesse vaivém –, a tecnologia é grande aliada. Isabel faz chamadas de vídeo ou voz pelo WhatsApp e a conversa, sempre atenciosa, não perde sua importância para quem está do outro lado. 

Já na Holanda, Rabello usa os recursos da plataforma Therapie Land para apoiar o acompanhamento de seus clientes: se ele achar necessário, pode indicar workshops sobre algum tema de saúde mental (de ansiedade e depressão a traumas) para o paciente assistir e, nos próximos encontros, eles discutem juntos as dúvidas e os aprendizados dessa experiência.

O acolhimento do idoso também inclui a família. “Os relacionamentos que foram construídos ao longo da vida vão se refletir na velhice. Às vezes, os familiares formam uma rede de apoio imprescindível para aquele senhor ou aquela senhora; às vezes, eles estão tão distantes que é necessário auxiliá-los a resgatar esse vínculo”, fala Isabel. Entretanto, Rabello lembra: “É fundamental respeitar os limites dessas relações afetivas, mas quando estamos na casa do paciente, sempre é uma oportunidade para conhecermos melhor os laços que há ali, pode ser com uma ajudante ou um familiar, e entender a sua importância para o nosso cliente”.  

Ganhos significativos

Para a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), “promover a integração da atenção à saúde do idoso em todos os níveis significa apostar na independência e na autonomia como um valor inerente à qualidade de vida dos idosos”. Ou seja, quando as necessidades de saúde mental da população envelhecida são atendidas, toda a comunidade sente o impacto. Os próprios idosos conseguem enfrentar suas limitações com equilíbrio, autoestima e independência; adoecem menos e não recorrem tanto às redes de cuidados e assistenciais; têm amigos e uma vida social ativa; dedicam-se a atividades físicas; e estão, de maneira geral, com a memória e as funções cognitivas em dia. 

Na outra ponta, a sociedade ganha indivíduos que podem ser, sim, sujeitos ativos econômica e culturalmente. Como o autor americano Ernest Hemingway colocou nas primeiras páginas de sua obra O velho e o mar, “tudo o que nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis”.

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