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#VelhiceNãoÉDoença: classificação da OMS pode aumentar o etarismo e dificultar o tratamento de idosos

Militantes do tema, Martha Oliveira e Carlos Uehara abordam as dificuldades que a nova CID trará para o atendimento à saúde e definição de políticas públicas para os 60+ 

Em meados de julho, o envelhecimento pautou reportagens, foi trending topic nas mídias sociais e gerou manifestações de associações e celebridades. Longe de ser motivo de comemoração, o destaque ao tema se deveu a uma decisão polêmica da Organização Mundial de Saúde. A entidade declarou que, a partir de janeiro de 2022, a velhice entraria no rol da Classificação Internacional de Doenças (CID), sob o código MG2A. 

Nas mídias sociais, publicações com a hashtag #VelhiceNãoéDoença alertavam para os danos da medida, que pode tornar o etarismo ainda mais evidente e prejudicar políticas públicas voltadas ao idoso. Além disso, no evento online ‘As novas demandas do envelhecimento e a CID-11: Perspectivas das Américas’, realizado no dia 19 de agosto e organizado pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas/OMS), o coletivo brasileiro “Velhice não é Doença” conseguiu mobilizar especialistas da América Latina para que a OMS receba sugestões que substituam o termo velhice.

Envolvida no combate ao etarismo e cuidado ao idoso desde seu doutorado e de sua passagem pela Agência Nacional de Saúde,  Martha Oliveira também indignou-se com a nova classificação. A diretora executiva da Laços Saúde lembra que os idosos já haviam sido vítimas de preconceito em 2020, quando a Covid-19 parecia afetar especialmente essa faixa etária, e teme que o etarismo se exacerba com a medida da OMS. 

“O envelhecimento é um processo natural da vida e uma conquista da sociedade. É resultado de condições de vida melhores, de saneamento, avanços na medicina. A proposta da OMS é o resgate do preconceito”. 

Martha Oliveira

Por outro lado, a organização alega que buscou justamente reduzir o preconceito contra os idosos ao substituir o código da senilidade, um termo, em sua avaliação, com uma conotação negativa, por velhice, uma palavra mais popular. 

Profissionais de saúde que lidam diretamente com o tratamento dos idosos, porém, discordam. Militante contra o etarismo e por melhorias no atendimento aos idosos, o geriatra Carlos Uehara não acredita que o tema traga benefícios para os pacientes e nem para os médicos especializados. 

“Embora a CID não trate apenas de doenças, mas também de algumas condições de saúde e achados clínicos, o que entra para a classificação acaba tendo conotação de doença. O grande problema é esse. A gente vem de uma construção de mais de 20 anos, lutando para diminuir os preconceitos com relação ao envelhecimento, que sempre é visto por uma ótica ruim, e agora temos um termo da CID que vem com vários rótulos e preconceitos agrupados.”

Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e membro das Câmaras Técnicas de Geriatria do Conselho Federal de Medicina (CFM) e Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), Carlos explica que senilidade era um termo mais restrito aos especialistas. Porém, a velhice é um termo mais popular, que pode se tornar excessivamente usado como causa mortis de pacientes com idade avançada. 

“Isso mascara o resultado de pesquisas e estudos que vinham sendo realizados com idosos até agora e dificulta nossa tomada de decisão. Os pacientes morrem de infarto, AVC ou queda, por exemplo, mas, dependendo da idade, podem ser enquadrados no código da velhice. Para poupar energia, as pessoas vão acabar colocando o MG2A no bloquinho de CIDs preferidos e deixar de usar outros”, brinca.

Tratamento para o que não tem cura

Médica, Martha defende que a velhice não pode ser comportada em uma definição de doença ou condição de saúde. “Envelhecimento não se trata ou se cura. Além disso, a definição apaga a diversidade dos idosos, que logo representarão 20% da população.”

Em sua prática clínica, Carlos também imagina as dificuldades para lidar com a classificação. “É uma condição de saúde que não estará associada a um desfecho. Mais do que isso, se pensarmos que as pessoas podem viver até os 120 anos, elas passariam metade da vida na velhice. É um grupo muito heterogêneo. Essa CID deixa de considerar histórias de vida e os muitos tons do envelhecimento.” 

Da perspectiva de políticas públicas, a CID levaria à perda de informações sobre comorbidades e mortalidade dos 60+, o que dificultaria a definição de estratégias e direcionamento de investimentos. “E já temos subnotificação sobre as causas de adoecimento e morte de idosos no Brasil”, lembra Marta. 

“Políticas públicas são definidas a partir de dados científicos. Se a velhice for considerada uma nova epidemia, vamos fazer as pessoas morrerem mais cedo para combatê-la?”,  provoca Carlos.

O geriatra lembra que o atendimento ao idoso requer um olhar também ao contexto do paciente, uma visão ampla, e não fatiada do indivíduo e, mais do que tudo, uma boa conversa, para que a senilidade (envelhecer com doenças) se transforme em senescência (envelhecer com saúde). “O que eu faço pelos idosos é o que espero que os profissionais de saúde façam comigo no futuro. Essa militância é para que, quando eu chegar na fase que necessite de mais atenção médica, eu receba um cuidado mais adequado e humano, inclusive para a minha família”, conclui.

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